A história política de Cleiton Profeta é curta no calendário e longa em conflito. Em pouco mais de cinco anos, o joinvilense de 46 anos, formado em gestão pública e morador do Centro, saiu da suplência discreta para o protagonismo combativo — e do mandato eleito ao banimento político. A linha do tempo merece atenção, porque nela está, em miniatura, o retrato de como o sistema responde a quem se recusa a jogar pelas regras tácitas do convívio parlamentar.
A estreia foi em 2020. Pelo PL, Profeta obteve 994 votos, ficou em 67º lugar e garantiu a suplência. O caminho até a cadeira veio em 2023, quando o titular Maurício Peixer foi convocado para a Alesc, e Profeta assumiu. Foi nesse primeiro contato com o mandato que o estilo se revelou: discurso direto, presença ativa nas redes, postura de enfrentamento. Naquele mesmo ano, uma simples publicação com a bandeira de Gadsden — símbolo histórico do liberalismo conservador americano — rendeu-lhe ataques pessoais coordenados e o levou a registrar boletins de ocorrência. A própria Câmara emitiu nota de repúdio em defesa do parlamentar. Já naquele momento, ficava claro: Profeta tinha inimigos antes mesmo de ter mandato completo.
A passagem terminou em julho de 2024, com o retorno de Peixer. Mas a história não acabou ali. Nas eleições de outubro daquele ano, Profeta concorreu como titular, recebeu 3.225 votos — mais do que triplicou sua votação anterior — e foi eleito como o 22º vereador mais votado. Não foi descoberta acidental do eleitorado. Foi escolha consciente, em uma cidade que o havia conhecido em seu primeiro biênio.
A nova legislatura começou em janeiro de 2025, e o estilo continuou. Profeta firmou-se como uma das vozes mais agressivas da oposição à então prefeita interina Rejane Gambin (PL) — coincidentemente do seu próprio partido — e ao grupo político do ex-prefeito Adriano Silva (Novo). Subiu à tribuna com frequência, cobrou explicações, fez denúncias e, sim, ofendeu colegas. Chamou Henrique Deckmann (MDB) de "velho gagá", usou adjetivos como "canalha" e "tanso" em discursos. Há registros de bate-bocas que viraram empurrões em sala fechada. Nada disso é defensável. Tudo isso, vale dizer, encontra resposta institucional adequada em advertências, censura formal, suspensão temporária e multas. Para isso, aliás, é que esses instrumentos existem na hierarquia das sanções legislativas.
O que aconteceu, porém, foi outro caminho. A denúncia formal partiu, em março de 2026, dos diretórios estadual e municipal do Partido Novo — agremiação que tem o ex-prefeito Adriano Silva como pré-candidato a vice-governador na chapa de Jorginho Mello (PL) em 2026. O relator do processo na Comissão Processante foi Érico Vinicius, também do Novo. A coincidência partidária entre denunciante e relator é o tipo de detalhe que, em qualquer processo judicial sério, geraria suspeição. Em processo político, ficou apenas como nota de rodapé.
Em 8 de junho de 2026, com 13 votos pela cassação — o mínimo exigido — e duas absolvições (Instrutor Lucas e Wilian Tonezi, ambos do PL), o mandato caiu. Três vereadores se abstiveram, incluindo Diego Machado (PSD), gesto que muitos leram como desconforto institucional com o desenho do processo.
Profeta deixa a Câmara com a perda anunciada dos direitos políticos por oito anos. O suplente Cassiano Ucker (PL), com 3.017 votos, deve assumir nos próximos dias. A defesa recorrerá. Mas o estrago institucional — o de transformar um problema de convivência parlamentar em decreto de morte política — está feito. E é esse, e não o vocabulário do vereador cassado, o legado mais incômodo deste processo para a Câmara de Joinville.
