A Câmara de Balneário Camboriú e o quebra-cabeça que explica o atrito com a prefeita

Prefeita do PSD, maior bancada do PL, migrações partidárias e tentativa frustrada de cassação ajudam a desenhar o cenário em que se desenrola o embate atual entre Juliana Pavan e a oposição.

Política
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Para entender por que o tom entre Executivo e Legislativo em Balneário Camboriú anda mais ácido do que o usual, é preciso recuar à composição da Câmara que saiu das urnas de 2024. O quadro é peculiar — e ajuda a contextualizar episódios como o desta semana, em que a prefeita Juliana Pavan (PSD) chamou a oposição de "burra" e foi rebatida na tribuna por Guilherme Cardoso (Republicanos).

A eleição municipal de 2024 produziu uma configuração legislativa atípica. O PL, partido do segundo colocado na disputa pela prefeitura — Peeter Grando, derrotado por Juliana —, elegeu a maior bancada da Câmara, com seis vereadores entre os 19 assentos. Entre eles, Jair Renan Bolsonaro, filho do ex-presidente, foi o mais votado da cidade. A coligação que apoiou Juliana, formada por oito partidos, conseguiu sete cadeiras, mas distribuídas em pequenas bancadas. O resultado prático: o governo da prefeita conta com base de sustentação, mas precisa negociar permanentemente, sem nenhum partido isolado garantindo maioria automática.

Esse desenho ajuda a explicar a relevância das migrações partidárias ocorridas ao longo de 2025. Dois vereadores eleitos pelo PL — Guilherme Cardoso e Victor Forte — trocaram a legenda pelo Republicanos. A decisão, individual em ambos os casos, teve impacto coletivo: reduziu a bancada do PL na Câmara e enfraqueceu, naquele momento, a principal força legislativa de oposição à prefeita.

A resposta do PL veio em formato judicial. A direção partidária estadual e local acionou os mecanismos para tentar cassar os mandatos dos dois parlamentares, sob a alegação de infidelidade partidária. A justiça eleitoral, contudo, reconheceu as hipóteses de justa causa para a desfiliação, e os mandatos foram preservados. Cardoso e Forte seguiram na Câmara, agora como Republicanos, e mantiveram o perfil oposicionista.

O quadro atual da oposição, portanto, é heterogêneo por construção. Reúne os dois ex-PL, agora no Republicanos, além de Naifer Neri e Mazinho Miranda, parlamentares com trajetórias próprias e independentes da agenda do PL nacional. Esse mosaico — em que a oposição vem de origens diferentes e às vezes conflitantes entre si — torna a articulação entre os críticos do governo mais difícil, mas também mais difícil de combater pelo Executivo, já que não há uma única ponte de diálogo possível.

Há ainda um detalhe biográfico que ajuda a explicar a sensibilidade da prefeita ao tema. Antes de chegar ao Executivo, Juliana Pavan foi vereadora oposicionista ao então prefeito Fabrício Oliveira. É natural que enxergue, com particular nitidez, o que considera "boa" ou "má" oposição — afinal, ela própria operou nessa posição por anos. O risco, evidentemente, é que essa convicção pessoal contamine a leitura do papel institucional dos atuais opositores, que prestam contas aos eleitores, não ao Executivo.

A Câmara de Balneário Camboriú, com sua geometria política instável, deve seguir produzindo episódios como o desta semana ao longo dos próximos anos. O risco para Juliana Pavan é confundir crítica legítima com hostilidade. O risco para a oposição é confundir cobrança com palanque permanente. O equilíbrio, como costuma ocorrer em legislativos municipais, será encontrado — ou não — ao longo do mandato.

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