A discussão entre a prefeita Juliana Pavan (PSD) e o vereador Guilherme Cardoso (Republicanos) sobre segurança pública em Balneário Camboriú movimentou as redes sociais e o plenário da Câmara nesta semana, mas a pauta exige menos retórica e mais números. E os números, para variar, contam uma história mais complexa do que cada lado isolado quer apresentar.
Os dados oficiais mais recentes vêm da própria Secretaria de Segurança e Ordem Pública do município. Entre 1º de janeiro de 2025 e 27 de abril de 2026 — pouco mais de 15 meses, portanto —, a Guarda Municipal atendeu mais de 31 mil ocorrências. Foram 252 mandados de prisão cumpridos, cerca de 857 conduções à delegacia, 169 veículos furtados ou roubados recuperados e atuação direta em 182 casos de furto e outras categorias.
Há, do lado da estrutura, investimento visível. A Guarda Municipal hoje conta com 170 agentes em atuação, e a meta declarada pela prefeitura é transformá-la na maior de Santa Catarina. A cidade implementou o sistema de leitura automática de placas (LPR, em inglês), que entre janeiro e março de 2026 recuperou 36 veículos com registros de furto ou roubo. Drones operados por agentes treinados em pilotagem específica, com câmeras térmicas, integram a rotina de patrulhamento. Está em planejamento a chamada Smart BC Muralha Digital, projeto que prevê combinar radares, câmeras integradas e leitura de placas para o que o secretário Araújo Gomes definiu como o "fechamento do cerco" da cidade.
A modernização é, em parte, resposta à pressão exercida pela própria geografia da cidade. Com 151 mil habitantes fixos (estimativa de 2025) e uma população flutuante que ultrapassa 1 milhão em alta temporada, Balneário Camboriú lida com uma assimetria que poucos municípios catarinenses enfrentam: precisa ter força de segurança dimensionada para um pico, mas operar com orçamento de uma cidade média.
Esse contexto não anula, porém, o outro lado da história — o que aparece nas mensagens recebidas pelos vereadores e citadas por Cardoso na tribuna. Comerciantes do Centro relatam recorrência de furtos, moradores reclamam de arrombamentos a veículos e residências, e o secretário Araújo Gomes reconheceu publicamente, em abril, a percepção de que pessoas em situação de rua estão associadas a parte dos furtos noturnos, num ciclo ligado ao consumo de drogas.
A coexistência entre os dois cenários — investimento crescente e percepção persistente de insegurança — é menos contraditória do que parece. Reflete o descompasso comum entre o ritmo de implementação de políticas públicas e o ritmo das demandas do dia a dia. A prefeitura aposta na consolidação da estrutura para os próximos meses. O eleitor, em geral, mede a qualidade do serviço pela última ocorrência da quadra.
Esse é, em última instância, o terreno em que prefeita e oposição vão disputar a narrativa nos próximos dois anos.
