Se Bolsonaro mudou de opinião, por que Manu Vieira não poderia?

Republicado nesta semana pelo Jornal Razão, um vídeo antigo mostra a vereadora defendendo, anos atrás, posições que hoje ela própria rejeita. Na política, esse tipo de descoberta costuma ser tratado como pegadinha — mas talvez devesse ser tratado como evidência de algo mais nobre.

Política > Santa Catarina
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Se Bolsonaro mudou de opinião, por que Manu Vieira não poderia?

Circula esta semana, republicado pelo Jornal Razão, um vídeo antigo da vereadora Manu Vieira (PL) em que ela defende a legalização do aborto e a descriminalização das drogas.

O material, gravado anos antes da atual posição pública da parlamentar, é apresentado pelos críticos como prova de incoerência. Manu, hoje, sustenta posições diametralmente opostas àquelas. Para muitos comentaristas das redes, isso bastaria para desqualificá-la. A reflexão honesta sugere o contrário.

Mudar de opinião é, possivelmente, uma das experiências humanas mais subestimadas pela política brasileira contemporânea.

A cultura digital — com sua memória eterna, seu apetite por contradição e sua dificuldade em separar o erro do crescimento — transformou a coerência aparente em virtude maior do que a busca pela verdade. O resultado é perverso: quem nunca muda é elogiado por "convicção", mesmo quando essa convicção era equivocada; quem evolui é acusado de "virar a casaca", mesmo quando a evolução veio do estudo, da experiência, da fé ou simplesmente do amadurecimento.

Não é assim que se forma uma pessoa. Não é assim, aliás, que se formou nenhuma das figuras públicas que hoje são reverenciadas pelo próprio campo que costuma promover esse tipo de "pegadinha" política.

O ex-presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, deu ao longo de sua carreira parlamentar dezenas de entrevistas com posicionamentos que, no contexto atual, soariam estranhos para boa parte de sua base. Defendeu, em determinados momentos, agendas econômicas estatistas que hoje seu campo rejeita. Manteve, em outras passagens, alianças partidárias que pareceriam impensáveis vistas dos anos 2020. Bolsonaro, como qualquer ser humano, foi mudando — por estudo, por convivência, por amadurecimento de suas convicções religiosas, por leitura do tempo histórico em que vivia. A versão atual do ex-presidente é fruto dessa evolução. Quem o admira hoje, admira justamente o resultado de um processo de mudança.

O mesmo vale para quase todos os nomes relevantes do conservadorismo brasileiro contemporâneo. Olavo de Carvalho começou como articulista de esquerda antes de se tornar referência intelectual da direita. Diversos pastores, padres e líderes religiosos relatam abertamente conversões e reposicionamentos morais. Políticos liberais hoje hegemônicos no campo da direita defendiam, há quinze anos, posições muito mais ambíguas em temas culturais. A história intelectual e política do conservadorismo brasileiro recente é, em boa medida, a história de pessoas que mudaram de ideia.

Por que, então, mudar de ideia seria pecado quando se trata de uma vereadora hoje alinhada a essa mesma trajetória? A pergunta é honesta e merece resposta honesta.

Manu Vieira, em outro momento de sua vida, defendia posições que ela hoje rejeita. Isso significa, em termos práticos, que ela estudou mais, conviveu com pessoas diferentes, reavaliou argumentos, encontrou novas referências intelectuais e morais — e concluiu que estava errada. Essa não é uma fraqueza biográfica.

É exatamente a virtude que qualquer sociedade saudável deveria cultivar em seus cidadãos: a humildade de reconhecer um erro e a coragem de assumir publicamente o novo lugar.

A alternativa é uma cultura política em que ninguém pode crescer. Em que cada frase dita aos 22 anos persegue a pessoa aos 42. Em que o adolescente equivocado define para sempre o adulto formado. Não é só desumano. É também contraproducente. Se queremos uma direita catarinense madura, articulada e duradoura, precisamos aceitar que muitas das pessoas mais valiosas para esse projeto chegaram a ele depois de longos processos de mudança. Quem fecha a porta para o convertido condena seu próprio movimento à estagnação.

Há, evidentemente, casos em que a mudança de opinião é oportunista — feita para acomodar interesses, conquistar votos, agradar aliados de ocasião. Esses casos existem e merecem o escrutínio público. Mas a presunção honesta, especialmente diante de uma trajetória pública consistente nos últimos anos, deveria ser a contrária: a de que a pessoa simplesmente evoluiu. Que estudou. Que ouviu boas pessoas. Que aceitou bons conselhos. Que aprendeu.

Manu Vieira tem o direito de ter sido quem foi. E tem o dever, agora, de ser quem se tornou. O vídeo antigo não a desqualifica. Documenta, na verdade, algo bem mais raro do que coerência: o caminho percorrido por alguém que escolheu, em algum momento, pensar diferente do que pensava.

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