A matemática que ameaça a chapa pura do PL em SC

Cada eleitor escolhe dois nomes para o Senado, mas a regra que parece favorecer a direita catarinense pode, na prática, condená-la a sair com menos vagas em 2026.

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Eleição para o Senado tem uma regra que parece, à primeira vista, favorecer campos políticos majoritários. Diferentemente das disputas presidenciais ou para o governo, cada eleitor escolhe não um, mas dois nomes — quando há duas vagas em jogo, como será o caso em Santa Catarina em 2026.

Para um campo bolsonarista que reúne, segundo as pesquisas mais recentes, algo entre 55% e 65% do eleitorado catarinense, isso deveria significar conforto.

A matemática, no papel, sustenta a eleição dos dois candidatos preferidos da direita estadual com folga.

Na prática, o horizonte de eventos é mais traiçoeiro. E é na mesma matemática que mora o risco real para a chapa pura do PL — formada por Caroline de Toni e Carlos Bolsonaro — neste ciclo eleitoral.

O primeiro problema é que o eleitor não distribui automaticamente os dois votos para o mesmo campo. Pesquisas históricas de comportamento eleitoral em disputas para o Senado mostram que parcela significativa dos eleitores prefere "equilibrar" sua escolha entre nomes de campos diferentes, ou usar o segundo voto como expressão de proteção institucional — votando em um nome conhecido, com trajetória estável, mesmo que ideologicamente distante.

É o fenômeno do voto útil aplicado ao bicameralismo. Em Santa Catarina, esse comportamento tende a favorecer Esperidião Amin, que reúne hoje atributos típicos do candidato "segundo voto": longevidade política, baixa rejeição entre eleitores moderados e ausência de associação direta com a polarização nacional.

O segundo problema é a sobreposição de eleitorados. De Toni e Carlos Bolsonaro disputam, na essência, o mesmo nicho: o eleitor identificado com o bolsonarismo catarinense, especialmente o segmento mais ideológico. Esse eleitor, em geral, dará apenas um dos dois votos para esse nicho — porque o segundo já estará comprometido com Amin, com o candidato petista, ou com alguma alternativa do centro.

Quando os dois candidatos disputam a mesma fatia, a divisão é praticamente inevitável.

A simulação fica mais clara em números. Suponha-se que o eleitorado bolsonarista catarinense represente 60% do total. Suponha-se ainda que apenas 40% desses eleitores opte por dar os dois votos para a chapa pura do PL — comportamento otimista, considerando o que mostram as pesquisas.

Os outros 60% darão um voto para Carlos ou De Toni, e o segundo para Amin, para o PT ou em branco. Resultado: cada candidato da chapa pura recebe em torno de 25% a 30% dos votos válidos. Já o candidato do PT, com base estável em torno de 25% e segundo voto da militância concentrado em si mesmo, supera essa barreira. Amin, com sua tração própria mais a porção do voto útil da esquerda, dispara para 35% ou mais.

O cenário matemático possível, portanto, é o seguinte: Amin em primeiro com folga, o PT em segundo, e De Toni e Carlos Bolsonaro empatados em terceiro e quarto — sem vaga.

Esse desfecho não é inevitável. Depende de variáveis que ainda podem se mover: a possibilidade de uma das duas candidaturas do PL ser retirada antes do registro, um eventual realinhamento que devolva Amin ao campo aliado, ou uma campanha vigorosa que consiga distribuir nichos diferentes entre os dois candidatos da chapa pura.

A ironia, no fim das contas, é amarga: a direita catarinense, organizada e majoritária, corre o risco de sair de 2026 sem nenhum senador eleito. Não por falta de votos. Por excesso de candidatos.

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