A política eleitoral catarinense entrou em 2025 com um quadro razoavelmente desenhado para a direita estadual, e Caroline de Toni (PL) era um dos pilares desse desenho. Deputada federal de mandato sólido, voz reconhecida na bancada bolsonarista no Congresso e articuladora paciente de uma base de apoio que reunia, segundo cálculos dos próprios aliados, centenas de prefeitos e vereadores espalhados pelos 295 municípios do Estado, De Toni se firmava como o nome natural para uma das duas vagas catarinenses no Senado em 2026. A trajetória parecia linear. Era só caminhar.
Seis meses depois, a paisagem é outra. E não por mérito ou erro da deputada.
O ponto de inflexão foi o anúncio da pré-candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina. Vereador do Rio de Janeiro, sem trajetória política prévia no Estado, o filho do ex-presidente decidiu desembarcar em terras catarinenses convencido — não sem alguma razão — de que SC é o ambiente eleitoral mais receptivo possível para o sobrenome. O cálculo, do ponto de vista pessoal, faz sentido. Do ponto de vista do PL catarinense, abriu um problema que ninguém havia pedido para resolver.
O problema é matemático. Cada estado elege dois senadores.
A direita catarinense organizada acreditava ter, com razoável conforto, uma das vagas garantida para o seu campo, com a possibilidade real de levar as duas. O nome consensual para a primeira vaga era De Toni. A segunda seria objeto de articulação com aliados — Esperidião Amin, então no PP, costumava aparecer na conta. Com a chegada de Carlos Bolsonaro, esse desenho desabou.
A chamada "chapa pura" do PL, agora composta por Carluxo e De Toni, coloca dois candidatos disputando, na prática, o mesmo eleitorado: o bolsonarista catarinense, que é majoritário no Estado mas não infinito.
Os dois precisam, cada um, mobilizar fatia muito semelhante do mesmo bolo. Em política, quando isso acontece, o resultado raramente é a multiplicação dos votos. É a divisão.
A situação se complica ainda mais com o realinhamento do tabuleiro. Pressionado pelo desembarque de Carlos Bolsonaro, Amin migrou para o centro, costurou aliança com PSD e MDB e acomodou em torno de si boa parte do apoio institucional que antes estava difuso. As pesquisas mais recentes confirmam o efeito: o veterano já aparece com folga acima dos 20% e tende a continuar subindo. Caminha tranquilo para uma das vagas. Resta apenas a outra.
E é justamente nessa segunda vaga que mora o problema para De Toni. Os números dela e os de Carlos Bolsonaro, somados, podem até ser superiores aos do candidato do PT — que tem demonstrado piso estável em torno de 25%. Mas votos divididos não vencem disputas majoritárias. Se Carluxo e De Toni continuarem oscilando próximos um do outro, é matematicamente possível que ambos terminem atrás do petista. Em outras palavras: o campo bolsonarista catarinense corre o risco real de eleger zero senadores. Para o estado mais bolsonarista do país, seria desfecho irônico até demais.
Há ainda um padrão que aliados próximos têm observado com preocupação. Em ciclos anteriores, nomes apresentados como pré-candidatos ao Senado em estados estratégicos — Mário Frias em São Paulo, Nikolas Ferreira em Minas, Pollon no Sul, Caporezzo no Centro-Oeste — foram alçados a essa posição mais como peça de barganha do que como aposta efetiva. A vaga era inflada para depois ser negociada com partidos do Centrão em troca de outras concessões. O risco que se aventa nos bastidores é que De Toni, mesmo sem perceber, esteja vivendo esse mesmo enredo: sua estatura política supervalorizada para servir, no momento certo, como moeda de troca em uma articulação maior.
A diferença é que De Toni, ao contrário dos demais, tem base própria. Não precisava do enredo. E pode acabar pagando, sem nada ter feito de errado, a conta de um cálculo que não era seu.
A pré-candidata segue até aqui como favorita formal. Mas, no campo bolsonarista catarinense, cresce o número dos que admitem, em conversas reservadas, uma frase que há poucos meses seria impensável: a de que Caroline de Toni pode, sim, não se eleger.
