Em meados de 2024, quando o nome de Caroline de Toni começou a circular como pré-candidata ao Senado por Santa Catarina, a deputada federal já tinha em mãos algo que poucos parlamentares de seu campo conseguem reunir: uma rede consolidada de apoio institucional dentro do Estado. Articulado ao longo de seu mandato na Câmara dos Deputados, esse capital político era apontado como o principal trunfo da candidatura — e, no cálculo dos aliados, suficiente para garantir folgadamente uma das duas vagas em jogo.
A base, segundo levantamentos internos do próprio partido, reunia o apoio declarado ou explícito de mais de cem prefeitos catarinenses e de mais de mil vereadores espalhados pelos 295 municípios do Estado. O número impressionava porque ia além da geografia tradicional do bolsonarismo no interior. Incluía cidades médias e prefeituras de centros urbanos onde o PL nem sempre havia tido boa votação em ciclos anteriores. Era apoio costurado peça por peça, no estilo lento e paciente que De Toni adotou desde sua eleição em 2022.
Esse trabalho de capilarização tinha lógica eleitoral clara. Em disputas majoritárias para o Senado, especialmente em estados com perfil municipalista como Santa Catarina, o apoio de prefeitos e vereadores costuma ser mais decisivo do que tempo de TV ou exposição em rede nacional. Lideranças locais conhecem o eleitor de cada bairro, sabem mobilizar a base orgânica e operam estruturas paralelas de campanha que partidos não conseguem replicar do alto. Para uma candidata sem máquina estadual prévia, era o caminho mais sólido.
O que mudou, nos últimos meses, não foi a base de De Toni — que continua, no essencial, intacta. O que mudou foi o cenário em que esse capital opera. Com a entrada de Carlos Bolsonaro na disputa pela mesma vaga, parte do apoio institucional construído por De Toni passou a sofrer o que estrategistas eleitorais chamam de "competição interna".
Prefeitos e vereadores que apoiavam De Toni e simultaneamente simpatizam com o bolsonarismo nacional viram-se obrigados a escolher entre dois nomes do mesmo campo.
Há ainda um efeito secundário. Esperidião Amin, ao migrar para o centro e atrair apoio de PSD e MDB, capturou parte dos prefeitos e vereadores que, em outro cenário, poderiam estar na coluna de De Toni. Esses eleitores não foram subtraídos da base bolsonarista — pertenciam ao espectro de centro-direita que tradicionalmente flutua entre nomes. Mas o tamanho líquido do apoio disponível para De Toni encolheu sem que ela tenha cometido qualquer erro de articulação.
O resultado é uma situação peculiar. A base que De Toni construiu permanece existindo. O problema é que ela já não opera como blindagem suficiente contra a divisão de votos que se desenha. Apoio institucional consolidado vale muito quando o eleitorado-alvo é estável. Vale menos quando esse eleitorado precisa, de repente, decidir entre dois candidatos do mesmo campo. Na política, capital construído com paciência pode perder valor com rapidez surpreendente — não porque o apoio diminuiu, mas porque a moeda foi desvalorizada por movimento externo.
A pergunta que se coloca agora, dentro do PL catarinense, é se ainda há tempo de reconverter parte desse apoio em vantagem competitiva — ou se a estrutura paciente de De Toni servirá, no fim, para sustentar uma candidatura que não terá votos suficientes para coroar o investimento.
