A Colômbia encerrou neste domingo (21) o ciclo mais à esquerda de sua história recente. Pela apuração preliminar do segundo turno presidencial, o advogado e empresário Abelardo de la Espriella, de 47 anos, derrotou o senador Iván Cepeda — candidato apoiado pelo presidente Gustavo Petro — por 49,65% a 48,70%. Foram cerca de 13 milhões de votos para o vencedor, em uma eleição cuja margem é estreita o suficiente para alimentar disputas, mas larga o suficiente para tornar a reversão improvável. No primeiro turno, em maio, a diferença entre a contagem preliminar e a oficial foi de apenas 0,02 ponto.
A confirmação formal depende do chamado escrutinio, etapa de revisão das atas de votação por juízes e autoridades eleitorais, prevista para esta segunda-feira (22). Cepeda já anunciou que pedirá recontagem, e o presidente Gustavo Petro afirmou ver supostas irregularidades em atas, defendendo a impugnação de parte dos votos. São movimentos institucionalmente esperados em uma disputa apertada — e, ao mesmo tempo, sem precedente claro de reverter, na Colômbia, a tendência apontada pelo preconteo.
De la Espriella é uma figura nova na política eleitoral colombiana, ainda que conhecida do público nacional. Ganhou notoriedade como advogado criminalista, atuando em casos de alta exposição midiática, e como empresário com circulação confortável entre os círculos econômicos do país. Cidadão norte-americano naturalizado, residiu por anos em Miami antes de retornar à Colômbia para a empreitada presidencial — sua primeira experiência em disputa eleitoral. Construiu a candidatura por fora das estruturas partidárias tradicionais, apresentando-se como outsider, e adotou como marca de campanha o apelido "El Tigre".
O programa que o levou à presidência é tributário de uma onda política bem identificada. De la Espriella é abertamente alinhado a Donald Trump — que apoiou sua candidatura —, manifesta admiração por Javier Milei e por Nayib Bukele, e disse, ainda antes do lançamento oficial, que consertaria em oito meses o que chamou de "república de bananas". Sobre o presidente salvadorenho, considerado o protótipo do endurecimento securitário na região, chegou a dizer que seria "muito bonzinho". A plataforma de governo gravita em torno de uma única espinha dorsal: segurança pública. O candidato promete construção de grandes prisões, expansão das forças de ordem e revisão dos acordos de paz firmados pelo Estado colombiano com grupos guerrilheiros — temas particularmente sensíveis em um país que ainda carrega as feridas de décadas de conflito interno.
A agenda econômica ficou a cargo do vice José Manuel Restrepo, ex-ministro da Fazenda no governo Iván Duque. A divisão de tarefas lembra o desenho adotado no Brasil em 2018, quando Jair Bolsonaro delegou o tema a Paulo Guedes. As linhas anunciadas são previsíveis: corte da atuação do Estado, expansão da produção de petróleo e retomada da agenda neoliberal interrompida sob Petro.
A campanha foi violenta. Houve atentados a bomba no sul do país, ataques com drones explosivos e o assassinato, em Bogotá, de um candidato presidencial relevante no primeiro turno — episódio que ressignificou a discussão sobre segurança em toda a corrida eleitoral. De la Espriella soube capitalizar esse contexto melhor do que qualquer adversário.
Caso o escrutínio confirme o resultado, a posse será em 7 de agosto. A Colômbia se somará à lista de governos sul-americanos alinhados à direita conservadora — junto a Argentina, Equador e Paraguai —, em um movimento de rearranjo geopolítico que vinha se desenhando desde 2023. Para Petro, o desfecho é uma derrota dupla: encerra seu projeto político imediato e devolve à direita o controle de um país que, por menos de quatro anos, viveu seu primeiro experimento progressista.

