Schulz: lucro cai 22%, mas geração de caixa segue intacta

Receita encolheu 10%, margens cederam frente à ociosidade fabril, mas a companhia catarinense fechou o trimestre com caixa líquido de R$ 135 milhões, dívida bruta 17% menor e dividendos 2026 mantidos no calendário.

Economia > Santa Catarina
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Schulz: lucro cai 22%, mas geração de caixa segue intacta

A Schulz S.A. (B3: SHUL3/SHUL4) divulgou seus números referentes ao primeiro trimestre de 2026 e o release confirma um cenário que vinha sendo desenhado nos últimos meses: contração de receita, pressão sobre margens, mas robustez financeira preservada. Para o investidor de longo prazo — perfil ao qual a empresa joinvilense historicamente atrai — é justamente essa segunda parte da equação que merece a leitura mais atenta.

O quadro operacional

A Receita Operacional Bruta consolidada totalizou R$ 533,6 milhões no trimestre, recuo de 10,3% sobre o 1T25. A Receita Líquida caiu 9%, para R$ 448 milhões. O lucro líquido encolheu 22%, fechando em R$ 55,6 milhões, com margem líquida de 12% (ante 14% no mesmo período do ano anterior). O EBITDA somou R$ 62,8 milhões, com margem de 14% — três pontos percentuais abaixo dos 17% obtidos no 1T25.

A explicação que a administração apresenta no relatório é factualmente verificável: o mercado interno de caminhões pesados e semipesados, principal vetor da Unidade Automotiva, sofreu retração média de 22% segundo dados da Anfavea, pressionado pela Selic elevada e pelos spreads bancários ainda altos. O segmento agrícola seguiu a mesma curva descendente, com a Schulz registrando queda de 14% nas vendas para máquinas agrícolas e de construção. O efeito sobre a estrutura industrial — projetada para volumes maiores — produz o que o release chama tecnicamente de "custo de ociosidade", e que se traduz em margem bruta caindo de 26% para 21% no trimestre.

A leitura otimista é que parte da retração é cíclica. A leitura cautelosa é que a recuperação depende de variáveis que a Schulz não controla: corte da Selic, novos pacotes do Move Brasil (cuja verba do 1T26 foi integralmente consumida, sem garantia de continuidade) e estabilização cambial.

O lado que realmente importa para o longo prazo

Para um investidor buy and hold, três indicadores do balanço pesam mais do que o lucro trimestral isoladamente — e, neles, a Schulz entrega leitura positiva.

O primeiro é a posição de caixa líquido. A companhia encerrou março com R$ 135 milhões de caixa líquido positivo, mesmo após desembolso de R$ 31,5 milhões em dividendos e R$ 21,9 milhões em investimentos no trimestre. A relação Caixa Líquido/EBITDA ficou em 0,44x positiva. Para colocar em perspectiva: em 2021, a companhia tinha dívida líquida de R$ 482 milhões. A reversão completa para posição credora em quatro anos é um dos indicadores mais favoráveis que uma indústria de capital intensivo pode mostrar em ciclo recessivo.

O segundo é o perfil de endividamento. A dívida bruta caiu 17% no trimestre, de R$ 1,01 bilhão para R$ 836 milhões, fruto principalmente da amortização de R$ 150 milhões em empréstimos. O grau de alavancagem sobre o patrimônio líquido permanece em 9% — patamar conservador para o setor industrial.

O terceiro é a continuidade da política de remuneração ao acionista. O Conselho aprovou em março o pagamento de R$ 26,5 milhões em juros sobre capital próprio referentes ao 1T26, com pagamento marcado para 14 de agosto. Adicionalmente, dividendos intercalares aprovados em 2025 (R$ 100 milhões) seguem programados para pagamentos em setembro de 2026, 2027 e 2028, fornecendo previsibilidade rara entre as small caps brasileiras. Os JCP de 2025, no total de R$ 216,9 milhões, vêm sendo pagos conforme cronograma. O ROE de 18,20% em março de 2026 sustenta essa política.

Os vetores de crescimento que merecem atenção

Para além da estabilidade financeira, o release deixa pistas sobre onde a empresa busca crescimento estrutural. As exportações da Unidade Automotiva cresceram aproximadamente 18% em dólares no trimestre, mesmo com as tarifas norte-americanas de 50% incidentes sobre produtos brasileiros — patamar que, segundo a companhia, deve ceder para o intervalo de 10% a 25% no 2T26. A Schulz of America registrou queda de 7% em volume, compensada por repasses de preço. É um cenário pouco confortável, mas administrado.

A Unidade Compressores manteve estabilidade no mercado doméstico — desempenho que precisa ser avaliado contra a deflação de 12,6% do índice ABIMAQ no período. A rede de mais de mil postos de assistência técnica, mencionada como uma das maiores do mundo no segmento, é um ativo de longo prazo difícil de replicar por concorrentes. Cerca de 55,3% da receita líquida da unidade vem de produtos lançados nos últimos cinco anos, indicador relevante de vitalidade de portfólio.

A Schulz Soluções em Gases, criada em janeiro de 2025 a partir da incorporação da Janus & Pergher, é a aposta de mais longo prazo. Tratamento de biogás, geração de biometano e compressão via boosters até 250 bar posicionam a companhia em um mercado de geração energética que o próprio governo brasileiro tem sinalizado priorizar. A maturação será gradual — a administração faz questão de não vender expectativas inflacionadas —, mas o ativo está dentro do balanço.

Riscos no radar

A reforma tributária aparece nas notas explicativas como item monitorado, com a Companhia já adequando sistemas para CBS e IBS. Os impactos efetivos sobre margens líquidas dependerão da regulamentação infralegal ainda em consolidação ao longo de 2026.

A exposição cambial líquida em US$ 847 mil passiva e EU$ 5,3 milhões passiva é gerenciada via operações de swap — a Companhia tem R$ 13,3 milhões em hedge a pagar registrados, contrapartida saudável do hedge ativo equivalente. Não há sinais de exposição cambial descoberta relevante.

Síntese para o investidor de longo prazo

A Schulz entrega no 1T26 aquilo que sustenta a tese buy and hold em ações industriais cíclicas: lucro pressionado em ciclo desfavorável, mas com caixa, dívida e dividendos preservados. Quem comprou SHUL4 pensando em colher dividendos consistentes ao longo de uma década recebe, neste trimestre, exatamente o sinal que precisava — a companhia atravessa a parte ruim do ciclo sem comprometer a estrutura que produz retorno na parte boa.

A pergunta relevante não é se 2026 será um ano fácil. A administração já disse que não será. A pergunta é se a Schulz chega ao próximo ciclo de expansão com balanço, market share e portfólio fortalecidos. Os números do 1T26 sugerem que sim.

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