Um ano após tomar posse com a promessa de uma motosserra no estado, Javier Milei conseguiu o que poucos acreditavam possível: zerar o déficit fiscal argentino. A façanha, obtida por meio de cortes brutais em gastos públicos, demissões em massa no funcionalismo e eliminação de subsídios, transformou a Argentina em um caso de estudo — para o bem e para o mal.
Os números fiscais são inegavelmente positivos. A inflação, que chegou a 300% ao ano no pico da crise, recuou para 70% nos últimos 12 meses. A economia voltou a crescer, ainda que de forma tímida, no terceiro trimestre de 2025.
O custo humano
Mas os números sociais contam uma história diferente. A taxa de pobreza, que estava em 40% quando Milei assumiu, superou 55% no primeiro semestre de 2025. Os hospitais públicos enfrentam falta de medicamentos básicos. Escolas estão sem professores. E a classe média, que inicialmente apoiou o ajuste, começa a questionar o custo da receita liberal.
O ajuste fiscal sem proteção social é uma bomba de relógio. A Argentina já explodiu muitas vezes. Milei pode ter desarmado um detonador e instalado outro.
Economista da FGV


