Quebrar o próprio recorde é, na política, uma das tarefas mais difíceis que existem. Quem chega ao topo costuma descobrir que o teto tem armadilhas: a expectativa joga contra, o desgaste do mandato cobra seu preço e a renovação do eleitorado raramente conserva a mesma intensidade.
Ainda assim, ao olhar o tabuleiro catarinense para 2026, é difícil escapar da conclusão de que a deputada estadual Ana Campagnolo (PL) reúne, neste momento, os ingredientes para fazer exatamente isso e estabelecer uma nova marca histórica para o cargo em Santa Catarina. Os números de 2022 já são, por si só, um capítulo à parte.
Foram 196.571 votos, 4,91% do total estadual, mais do que o dobro da segunda colocada, Luciane Carminatti (PT), com 92.478.
A marca pulverizou o recorde anterior, de Gelson Merísio, que havia obtido 119.280 votos em 2014. Em termos práticos, Campagnolo elegeu, sozinha, o equivalente a duas cadeiras na Assembleia para o PL. É o tipo de proeza que, em geral, leva uma carreira inteira para ser repetida.
A questão, agora, é por que o cenário de 2026 parece, na leitura de quem observa a política catarinense de perto, ainda mais favorável do que o de quatro anos atrás. Três variáveis ajudam a explicar.
A primeira é o ambiente eleitoral em Santa Catarina. O Estado segue carimbado nas análises como o mais bolsonarista do país, e as pesquisas mais recentes — Mapa e Futura — mostram a direita amplamente majoritária. O governador Jorginho Mello (PL) caminha para a reeleição em primeiro turno com algo em torno de 55% das intenções de voto, arrastando consigo um efeito de palanque para candidaturas aliadas. Em estados onde o cabeça de chapa do governador é forte, a tendência histórica é de transbordamento para os puxadores de voto da Assembleia. Campagnolo é, hoje, a principal puxadora de votos do PL catarinense.
A segunda variável é a base própria, que se mostrou tudo menos circunstancial. Parte considerável da votação de 2022 veio do Oeste — região onde Campagnolo construiu carreira como professora de história em Chapecó —, do Vale do Itajaí e do Litoral Norte, mas seu alcance digital deu à candidatura escala estadual. Em quatro anos de segundo mandato, esse capital simbólico não apenas se manteve como ganhou camadas. A deputada acumulou pautas de bandeira clara para o eleitorado conservador, atuou em comissões com visibilidade e seguiu como referência nacional do bolsonarismo feminino, algo que poucos parlamentares estaduais de qualquer Estado podem reivindicar.
A terceira é a aliança institucional. A boa relação com o governador, somada ao alinhamento estreito com o PL nacional, oferece a Campagnolo uma estrutura de campanha que, em 2018, ela não tinha, e que em 2022 ainda estava em construção. Para 2026, está pronta.
Há, claro, ressalvas. O voto bolsonarista pode se pulverizar com o desembarque de novos nomes na direita catarinense, e a disputa pelo Senado promete sugar atenção que normalmente iria para o Legislativo estadual. Mas mesmo descontando esses fatores, o piso de Campagnolo já é alto demais para ser ameaçado por concorrência interna comum.






