O Partido Novo conseguiu, em pouco menos de uma década, uma proeza rara na política brasileira: transformar em tradição interna a façanha de hostilizar o próprio candidato a presidente. A crise que se desenrola em Santa Catarina nesta semana é apenas a iteração mais recente.
Tudo começou com o "desconvite" do ex-governador Romeu Zema ao encontro estadual da legenda em SC, decidido unilateralmente pelo presidente estadual, Kahlil Zattar.
Nas horas seguintes, lideranças catarinenses do Novo — pré-candidatos, dirigentes, ex-dirigentes e filiados — passaram a articular uma petição formal ao Diretório Nacional pedindo intervenção no diretório catarinense e a destituição de Zattar. O argumento jurídico é o de extrapolação da competência estatutária. O argumento político, esse, é mais simples: às vésperas do ciclo eleitoral, a manobra inviabiliza candidaturas no Estado.
Quando se olha o histórico, o caso Zema se encaixa num padrão que merece registro. Em 2018, o Novo lançou seu primeiro candidato à Presidência: João Amoedo, o nome que praticamente fundou a imagem pública do partido. Três anos depois, ele havia sido expulso. Declarou voto em Lula no segundo turno de 2022, e a legenda — que o tinha como vitrine — o tratou como dissidente perigoso. Amoedo, por sua vez, passou a falar do Novo como projeto capturado por interesses que pouco lembravam o liberalismo institucional original.
Em 2022, o escolhido foi Felipe d'Avila. Pouco mais de meio milhão de votos depois (algo como 0,5% do total), o resultado eleitoral foi modesto, e a relação com a estrutura partidária seguiu o roteiro: atritos, leituras divergentes sobre alianças e, no horizonte, o silêncio educado que costuma preceder o esquecimento.
Agora, em 2026, é a vez de Zema. Antes mesmo de a candidatura se consolidar nacionalmente, o pré-candidato já encontra portas fechadas dentro de diretórios estaduais do próprio partido. Em pesquisa recente em Santa Catarina — Estado historicamente conservador, onde, em tese, a candidatura do Novo deveria ter solo fértil — Zema aparecia com 7,5%. Número promissor para um partido pequeno; insuficiente, ao que tudo indica, para evitar atritos internos.
Há uma hipótese que ajuda a explicar a repetição do enredo. Desde sua criação, o Novo carrega a expectativa — em parte cultivada, em parte imposta — de ser a "terceira via natural" da política brasileira. O peso desse rótulo é maior do que costuma parecer.
A cada eleição, o candidato presidencial precisa simultaneamente representar a pureza ideológica que cativa o militante e construir as pontes que viabilizam votos no mundo real.
As duas tarefas raramente caminham juntas. Quando o candidato pende para o pragmatismo, parte do partido o acusa de traição programática. Quando se mantém firme no purismo, naufraga eleitoralmente — e o partido cobra dele o naufrágio.
O resultado é um ciclo previsível: o Novo encontra um nome, o nome cresce, a estrutura interna se ressente, o nome se isola. Amoedo, d'Avila e agora Zema.
Se há lição na crise catarinense, talvez seja esta: antes de discutir quem o Novo lança como presidente em 2026, valeria discutir por que o partido tem tanta dificuldade em conviver com o presidente que lança.






