O Tribunal de Contas do Estado divulgou no início de junho o balanço da política de incentivos fiscais de Santa Catarina referente a 2025 e o número que chamou atenção foi expressivo: R$ 28 bilhões em arrecadação foram redirecionados, na prática, para dentro do caixa de empresas instaladas no Estado.
O valor supera a previsão original aprovada pela Assembleia Legislativa, de R$ 24,39 bilhões, e amplia uma curva consistente desde o início da atual gestão — foram R$ 21,64 bilhões em 2023 e R$ 26,53 bilhões em 2024.
A leitura imediata dos críticos foi a esperada: dinheiro que "deixou de entrar". A leitura econômica, no entanto, é mais interessante e exige um passo atrás. Renúncia fiscal não é dinheiro que evaporou; é o preço que Santa Catarina paga, deliberadamente, para continuar sendo o destino preferido de quem decide onde abrir, expandir ou manter uma fábrica no Brasil.
Os setores que mais se beneficiam contam essa história sem grande mistério. O complexo portuário catarinense — com Itajaí, Navegantes, Itapoá, São Francisco do Sul e Imbituba — segue como um dos principais corredores de comércio exterior do país, e sua competitividade depende diretamente de uma carga tributária que rivalize com a de portos concorrentes em outros estados.
O agronegócio, da suinocultura à avicultura no Oeste, atua em mercado internacional onde meio ponto percentual define se a carne sai daqui ou de Mato Grosso. E a indústria de transformação, do têxtil do Vale do Itajaí ao metalmecânico do Norte, compete com polos do Paraná, São Paulo e até com vizinhos do Mercosul.
A política, vale lembrar, não foi inventada no atual governo. O modelo catarinense de incentivos vem de longe, atravessa partidos e foi um dos principais responsáveis por transformar o Estado num case raro de industrialização descentralizada — sem capital gigante, com renda distribuída entre regiões e PIB per capita entre os mais altos do país. A novidade não é o uso da ferramenta, mas a escala em que ela vem operando à medida que outros estados disputam, com tributação agressiva, os mesmos investimentos.
Há, claro, espaço para o debate sobre transparência. Economistas ligados ao funcionalismo, como Maurício Mulinari, argumentam que faltam métricas públicas claras sobre quais empresas são beneficiadas, em quais prazos e com quais contrapartidas em geração de emprego. É uma cobrança legítima e, dependendo de como o Executivo responder, pode até fortalecer politicamente o modelo — números à mão tendem a calar mais críticos do que silêncios estratégicos.
Para 2026, ano eleitoral, a previsão é de R$ 31 bilhões em renúncia. Os adversários já se prepararam para chamar isso de problema. O governador deve preferir outra palavra: empregos. A briga semântica está aberta, mas, enquanto a Federação das Indústrias mantiver Santa Catarina no topo dos rankings de competitividade, o argumento econômico tende a falar mais alto do que o sindical. Em ano de urna, isso costuma fazer diferença.





