A diplomacia teve, nesta segunda-feira (15), um daqueles dias raros em que o noticiário parece animador.
Estados Unidos e Irã anunciaram um acordo para encerrar a guerra iniciada em fevereiro, o petróleo Brent caiu mais de 4% — cotado a cerca de US$ 83 —, as bolsas internacionais subiram e o Oriente Médio voltou a flertar com aquela palavra esquecida no século 21: estabilidade.
O entendimento, confirmado por Donald Trump e por autoridades iranianas, prevê a reabertura do Estreito de Ormuz, o fim do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos a portos iranianos e a suspensão das operações militares.
A assinatura formal está marcada para sexta-feira (19), na Suíça — destino tradicional para conflitos que querem terminar com discrição, longe das câmeras e perto de boa hospitalidade.
A reação mais imediata veio do mercado de energia. Ormuz é uma das passagens mais sensíveis do comércio global: por ali transita parcela significativa do petróleo e do gás consumidos no planeta. Com o tráfego marítimo a caminho da normalização, os contratos futuros do Brent recuaram em bloco.
Nos últimos meses, o fechamento do estreito e as restrições ao Irã haviam empurrado os combustíveis para cima e mantido bancos centrais em estado de alerta inflacionário.
A trégua, se cumprida, alivia parte dessa pressão.
O texto do acordo, ainda assim, é menos um ponto final e mais reticências organizadas. Tópicos espinhosos — programa nuclear iraniano, alívio de sanções econômicas e liberação de ativos congelados no exterior — ficaram para uma nova rodada de conversas nos próximos 60 dias.
Teerã afirma que o pacto também encerra, de forma permanente, as operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano.
O Líbano, contudo, ainda não foi informado por escrito.
Durante a madrugada e a manhã desta segunda, ataques israelenses continuaram sendo registrados na região de Nabatiyeh, no sul do país, com explosões relatadas por moradores e veículos estatais libaneses.
Israel, na contramão, informou ter interceptado drones e projéteis disparados do território vizinho. Autoridades locais pediram aos milhares de deslocados que adiassem o retorno para casa — recomendação sensata, considerando que a paz, até o momento, parece estar disponível apenas em formato PDF.
A posição de Israel adiciona outra camada de cautela à euforia diplomática. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não comentou oficialmente o acordo.
Integrantes de seu governo, no entanto, já sinalizaram que pretendem manter "liberdade de ação militar" contra o que consideram ameaças estratégicas no sul do Líbano — formulação que costuma significar, na prática, exatamente o oposto de um cessar-fogo.
O acordo entre Washington e Teerã é, sem dúvida, o avanço diplomático mais relevante desde o início da guerra. Resta saber se, ao chegar sexta-feira na Suíça, ele estará assinado por todos os atores que precisariam, de fato, parar de atirar. Por enquanto, os mercados acreditaram. O sul do Líbano, ainda não.




